Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Manuela Moura Guedes em entrevista ao Publico a 03/09/2009

Depois da saída de José Eduardo Moniz, julgou-se que Manuela Moura Guedes estaria por um fio na TVI. Amanhã volta com o seu Jornal Nacional de Sexta-feira, alvo de uma chuva de críticas, do Governo aos reguladores - que ela também nunca poupa na resposta. Faz finca-pé na filosofia que cultiva no jornal e no seu estilo frontal - é impossível ficar imune ao que se está a noticiar, garante.


Há alguma mudança no formato ou filosofia do Jornal Nacional de Sexta-feira?

Não, só fez férias. Um jornal é um jornal, não tem muito que se lhe diga.

É um semanário e há um tratamento e apresentação diferente das notícias se forem emitidas no Jornal de Sexta ou de outro dia.

Este jornal tem uma linha editorial nítida: é completamente directo, não faz rodriguinhos. Os jornalistas que o fazem confrontam e questionam as pessoas das reportagens de maneira directa e sem qualquer tipo de rodeios, têm a mesma forma de abordagem das notícias. As peças, porque são de mais investigação, exigem um tratamento muito mais duro.

Porque trata histórias mais delicadas? Guardam-se exclusivos para o Jornal de Sexta?

Há quem tenha ideia que por serem histórias mais delicadas é preciso ter rodeios. Não há histórias delicadas: as histórias ou são verdadeiras ou não são, ou conseguimos prová-las ou não. Se sim, há que as pôr no ar, questionar sem rodeios e de modo a que as pessoas as percebam. Em jornal de televisão não dá para voltar atrás, não só o próprio tem que nos perceber como as pessoas que estão em casa têm que nos perceber. A pergunta tem que ser breve, concisa e directa, frontal.

Se é subdirectora de informação, por que não há essa filosofia nos outros dias?

Porque há editores intermédios, eu não consigo estar em tudo, não consigo incutir em toda a gente - e também não sei... nem toda a gente tem essa facilidade de fazer este tipo de coisas. Há pessoas que têm mais dificuldade de fazer este tipo de abordagem.

Essa frontalidade tem-lhe trazido sempre problemas.

Teve altos e baixos. Enfim, não há nenhum político que me ligue, não me lembro, há anos, de falar com um assessor. Não tenho esse tipo de contactos, também não preciso deles. Posso até dar lições de como fazer jornalismo sem falar com eles senão na altura da confrontação pública, do contraditório.

Nunca conseguiu ter ninguém do Governo no seu jornal.

Não, nenhum, nem percebo porquê.

Isso é uma ironia.

Não, não percebo. Porque é impensável numa democracia, num país europeu, pseudo-desenvolvido, que um Governo, todo ele, se escuse a ir a um jornal tendo recebido dezenas e dezenas e dezenas de convites. Quando digo dezenas é mesmo dezenas. Obviamente que há ministros que não foram convidados, mas são raros. Nós temos uma contabilização, eu já perdi a conta. 

Porque têm orientações?

Não querem, obviamente. Tive alguns secretários de Estado. As pessoas esquecem-se que o Governo tem responsabilidades públicas de dar resposta aos cidadãos.

E o contraditório?

Depois da ERC, que pseudo-regula a actividade dos órgãos de comunicação social, dizer que este jornal que não fez o contraditório, tenho pena hoje de não dizer em cada uma das peças que não tivemos resposta. Sou presa por ter cão e presa por não ter. Se dissesse em cada peça que questionámos mas o Governo ou a administração pública não falou diziam que estava a fazer campanha contra o Governo, a provocar. Se não digo é porque não fazemos o contraditório. O Governo nunca fala para este jornal e portanto o contraditório é impossível. 

Até que ponto isso condiciona a equipa?

Nós já temos o maior zelo em tudo o que fazemos. Condicionou-nos neste ponto, não no que era essencial. Tenho sempre que pensar duas vezes no que vou dizer.

Já pensou em desistir, ir embora?

Há alturas em que fico um bocado farta desta gente, mas ainda não ao ponto, pelo menos ultimamente, de dizer que me vou embora. Mas chega a uma altura é que o cansaço é muito grande e começo a pensar "será que vale a pena?"

E tem valido?

Profissionalmente, tenho a consciência tranquila. Porque o jornalismo se se faz com seriedade e com espírito de não cedência, seja em que área for, é sem nome. Preciso de fazer o jornalismo sem pensar que estou a trabalhar ou para a TVI ou seja para quem for. Eu quero é que o trabalho que fazemos seja útil. Até alertamos para o que está bom, mas normalmente alertamos para o que está mal. Os políticos querem é que se aponte o que está bom. Mas o que está bom é suposto que assim esteja.

O jornalismo contrapoder.

O jornalismo actualmente não é visto como um contrapoder, infelizmente. Há uns tempos alguém ficou irritado porque usei a expressão "morder as canelas" e vieram logo troçar. Pois morder as canelas não é morder o pescoço, não é o atacar; é estar ali sempre atento, não deixar descansar, é responsabilizar, chatear. É ser contrapoder, não é ser antipoder - e as pessoas confundem isso.

Tem sido muito crítica do jornalismo actual.

Tenho muita vergonha do jornalismo que se faz. Estive do lado de lá, por pouco tempo, mas deu para perceber muita coisa. E num sítio onde a política está muito nos corredores e onde os jornalistas passam muito tempo nos corredores. Assisti às coisas e confesso que tive vergonha.

Há demasiada proximidade?

Há promiscuidade e falta de preparação dos jornalistas. E cedem muito facilmente.

Conscientemente?

Odeio pensar que estou a ficar como aqueles dinossauros que eu dantes criticava, mas vejo uma impreparação tão grande e uma falta de interesse até pelas coisas que fazem parte da profissão, pela história, pelo que se passa. E depois é difícil relacionar os factos.

Nesse campo " verde" do jornalismo é mais fácil aos governos cultivarem.

E não só. Dantes era uma coisa sagrada. A política, as áreas económicas e o jornalismo eram coisa que não se tocava. Havia regras, até se pecava por excesso. Agora misturam-se muito facilmente, um jornalista fica babado se um político lhes telefona, ou pensa que um dia poderá ser assessor ou ser escolhido para um gabinete. Será por causa do mercado, porque são pagos, por medo de serem postos de lado.

Já sentiu isso na TVI?

Naquela fase em que eu não estava a apresentar o jornal, uma pessoa respondeu-me que não fazia algumas perguntas porque se calhar depois era despedido. "Olha, vê o que te aconteceu", disse-me. Achei alarmante. 

Alguma vez foi de facto pressionada?

No dia em que for pressionada eu saio do ar. E quando não me virem no ar é porque alguma coisa se passou. 

Já avançou com os processos contra o primeiro-ministro?

São dois processos, o do director-geral e o meu. Há várias pessoas que quiseram juntar-se e que se calhar ficam juntas ao processo. Não quero falar sobre isso, está entregue ao advogado.

O que distingue a informação da TVI das outras?

A independência. Nós somos mais independentes que a SIC, seguramente, e não estou a dizer isto por ser da TVI.

Com a saída do José Eduardo há alguma indicação de mudança da filosofia na informação?

Espero bem que não. Para já nada. Mas as pessoas foram nomeadas interinamente.

Mais do que pelas notícias em si, é criticada pelo estilo de apresentação. Onde se inspirou?

Em lado nenhum, sou eu. Porque não sou alforreca. Os meus pivots não são inócuos, tento sempre juntar mais informação e contextualizar a peça, ligá-la a outros acontecimentos, de maneira a que as pessoas percebam o enquadramento. 

Mas junta-lhe um tom muito crítico...

É o meu tom. Acho isto fantástico. Andou o mundo inteiro a chorar o Walter Cronkite, um fulano que chorou, comentava tudo, tomou partido em não sei quantas coisas: "Um grande senhor!" Eu, que digo "pois", "mais uma vez", faço umas coisas que são do senso comum, sou criticada. E os pivots que dizem brejeirices, piscam o olho, fazem caretas quando vêem umas maminhas e uns rabinhos? Isso ninguém vê, nem a ERC nem os críticos, nem os outros jornalistas. Isto é estupidez. E já sobre a falta de isenção, de independência, o não tratarem os assuntos, repetirem a mesma notícia sem referirem que é quinta ou sexta vez que se anuncia uma coisa, tudo isto passa ao lado e estão preocupados se eu levanto uma sobrancelha ou se é o meu estilo ou não. Não... quando é política não se pode dizer nada, porque a política é sagrada.

Revê-se num paralelismo entre o Jornal e o Independente de há 15 anos?

Felizmente, porque o Independente, naquela altura, toda a gente esperava para saber que notícia trazia que deitava o ministro abaixo. A diferença é que hoje os ministros não vão abaixo - o que quer que aconteça permanecem no mesmo sítio, há muita impunidade. 

Aguarda com expectativa o resultado das eleições?

Eu e toda a gente, não?

Que consequências pode ter no seu futuro profissional?

[risos] É melhor colocar reticências na resposta... 

publicado por KV às 15:57
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